17/12/2012

LISBOA CONTINUA...

Os trabalhos em torno das cavidades subterrâneas de Lisboa continuam. Aqui fica um agradecimento muito especial ao Vítor Amendoeira e ao pessoal do GEM.

Foto: Mafalda Franco



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No dia 6 de Abril de 2013 participámos no Seminário "Produção e Consumo Sustentáveis: vertentes do desenvolvimento", organizado pela Universidade Aberta no Auditório do Sobreiro e da Cortiça (Coruche), no qual apresentámos a palestra "Ameaças à Geodiversidade - Cavidades Subterrâneas do Concelho de Lisboa", tal como parte dos resultados dos trabalhos preliminares desenvolvidos com o Grupo de Espeleologia e Montanhismo (GEM) naquilo que designámos por Complexo Subterrâneo da Furna do Rasto: fotografias dos trabalhos em curso, localização das entradas descobertas até agora e plantas  topográficas de duas das cavidades aí existentes. Neste contexto, serve este pequeno post para agradecer ao pessoal que participou nos trabalhos realizados: Vítor Amendoeira, Marta Borges, Pedro Robalo, Paulo Rodrigues, Gonçalo Lobato, Ricardo Conceição, Sandra Lopes, Rui Braga, Mafalda Franco, Tiago Matias e Fortunato Videira.


Pedro Cuiça, Profª Dra. Filomena Amador e Marcos Mestre.

13/11/2012

GRUTAS DE LISBOA (IV)

Toponímia
A filologia clássica explica a origem dos topónimos pela evolução da escrita e pelas suas significações actuais. No entanto, muitos dos nomes de sítios são de origem oral e bastante antiga, foram ditos e transmitidos de viva voz muito antes de terem passado à escrita: na melhor das hipóteses foram escritos nas crónicas medievais e, para a maior parte, com a organização dos registos prediais (século XIX) e a cartografia (século XX). Portanto, entre a nomeação do sítio e a passagem do nome à escrita podem ter-se passado três ou cinco milénios (ESPÍRITO SANTO, 2004)! Daí que os nomes dos locais possam ter sofrido diversas transformações correspondentes a tão dilatado intervalo de tempo, mudando inclusivamente de semântica. No entanto, o significado dos nomes dos sítios são geralmente bastante estáveis e duradouros, tal como as sociedades que os utilizam, e de certo modo dificilmente substituíveis porque são referências indispensáveis à vida quotidiana. Atendesse, por exemplo, como o poder pombalino “baptizou” a Praça do Comércio lisboeta e esta ainda continua ser chamada vulgarmente de “Terreiro do Paço”, como a “desconhecida” praça D. Pedro IV, também em Lisboa, é por todos conhecida como Rossio (ibidem). Os nomes eram e são as referências insubstituíveis dos sítios, transmitidos pela memória colectiva de gerações sucessivas, usados não só pelos naturais como pela gente das redondezas e pelos “estranhos” aos lugares.
Os nomes foram atribuídos aos sítios pelos habitantes locais e/ou vizinhos, em virtude das funções sociais ou das razões geográficas que esses sítios evocam. Os topónimos são, portanto, tanto ou mais estáveis do que os sítios que denominam. As mudanças de língua, de religião ou de sistema político, podem acrescentar novos nomes, mas regra geral não interferem na toponímia estabelecida. Há casos em que o nome mudou por via administrativa (um certo Vale de Cães mudou para Vale dos Prazeres ou Porcalhota passou para Amadora), mas trata-se de tendências recentes que só são viáveis pela força da escrita e da burocracia do Estado (ibidem).
A perenidade dos nomes não impede, contudo, alguns arranjos fonéticos, que são inevitáveis e até lógicos com a evolução milenar do linguajar. Esse fenómeno pode ocorrer sob a forma de uma corrupção fonética propulsionada pela proximidade semântica de um outro vocábulo, por exemplo o uso da palavra “algarve” com o mesmo significado de “algar”, por sua vez proveniente do árabe al-ĝār: a gruta. Abstraindo-nos dessas e de outras evoluções que os topónimos podem sofrer, não restam dúvidas de que os nomes dos sítios são de primordial importância para inferir as suas características geográficas “originais”, mesmo quando estas já há muito foram profundamente alteradas ou até destruídas e, por isso, esquecidas. Por estas e por outras razões, quando se procede a uma prospecção de cavidades subterrâneas numa determinada área começa-se frequentemente pelo estudo toponímico da mesma e, para tal, é costume recorrer-se a fontes bibliográficas e cartográficas, tal como aos habitantes locais. Qualquer espeleólogo sabe que os pastores são das melhores fontes de informação e que as tascas são locais preferenciais para obter preciosos dados, mas nessas circunstâncias é fundamental dominar a “gíria” local!
Estácio da Veiga (1886) refere que “sob a denominação de caverna correm confundidos varios termos de equivalente significação, taes como furna, algar, gruta e lapa, que todavia poderiam ser estremados com restricção especial, tendo-se em apurada conta o sentido, mais popular que litterario, com que a gente campesina emprega cada um d’esses vocabulos”. Esse autor salienta, ainda, que “não é tão nomeada a gruta como são a furna e o algar, e contudo os habitantes do campo sabem distinguila, aplicando o termo a certas cavidades de limitadas dimensões, que podem ser utilisadas para abrigo de gados e pastores”.
Segundo Ernest Fleury (1925): “Nas regiões de grutas (…), o povo distingue lapas, cavernas horisontais ou pouco inclinadas e algares ou algarves, verdadeiros abismos ou poços profundos, mais ou menos verticais. Conhece as designações de gruta e de caverna, mas não as emprega na linguagem corrente, conforme diz o Prof. Leite de Vasconcellos, substituindo-as pelos nomes de cova, lapa e até mina, que nada significam ao certo. No Algarve, na Madeira e nos Açores, falam muito de furnas mas com acepções diversas, parece, se bem que Estácio da Veiga tente contrapor furnas e algares.
Esta distinção popular de lapas e algares não deixa de ser exacta mas nem sempre é aplicada e, além disso, é insuficiente. As lapas compreendem os simples abrigos na rocha como também verdadeiras cavernas; os algares parecem ser sobretudo cavidades de acesso difícil. Por outro lado, o povo em geral só conhece as entradas das grutas e não é capaz de reconhecer a sua diversidade morfológica.
Esta confusão linguística no tocante à tipologia das cavidades de pouco importa para o objectivo em causa que se trata, não nos podemos esquecer, de pura e simplesmente descobrirmos as ditas. A estas denominações podemos ainda acrescentar outras (muitas) mais: abismo, algarão, algarinho, algarocho, buraco, fojo, forjoco, fórna, furninha, grota, grotão, grotião, grotilhão, gruna, grutião, grutilhão, lapão, loca, lura, poço, socairo, socavão, solapa, solapão, toca, etc.. Antro, cavidade, covil, cripta, espelunca, entre outros, são termos eruditos que se poderão encontrar na literatura mas dificilmente entre as gentes do campo e, curiosamente, também da cidade.

Foi munidos desta bagagem lexical que encetámos uma intensa busca bibliográfica e cartográfica, tal como partimos à aventura de questionar os transeuntes que encontrámos em “campo” (melhor seria dizer: na cidade!) sobre a existência de cavidades subterrâneas. Foi também neste contexto que descobrimos diversas referências de grande interesse. Algumas revelaram-se, é certo, ambíguas e dificilmente relacionáveis com a existência de cavidades subterrâneas, como Travessa dos Algarves (Sta. Maria de Belém), ou comprovadamente sem nada a ver com a tipologia de cavidades desejada, como a Rua do Poço dos Negros (S. Catarina e S. Paulo). Outras apesar de promissoras revelaram-se impossíveis de comprovar, como Cova da Onça: descobrimos dois desses topónimos no concelho de Lisboa, um na freguesia de Carnide (Azinhaga da Cova da Onça) e mais um na freguesia dos Prazeres.
Outros exemplos similares são a Rua da Lapa e a própria freguesia homónima (Lapa) onde esta se situa, a Quinta das Furnas, o Bairro Social da Quinta das Furnas e a Rua das Furnas (S. Domingos de Benfica), o Páteo das Furnas (Nª Sra. da Ajuda) e Calçada do Poço dos Mouros, anteriormente designada Estrada do Poço dos Mouros (Penha de França). Outras referências ainda, apesar de confirmadas formas endocársicas, por diversas vicissitudes, deixaram de existir (porque foram destruídas) como é o caso da Cova da Moura (Prazeres). Este topónimo surge amplamente em diversa bibliografia, em cartografia e no terreno, sob diversas formas: Alto da Cova da Moura; Rua da Cova da Moura; Travessa da Cova da Moura; Chafariz da Cova da Moura; Vale da Cova da Moura. Esta cavidade localizar-se-ia no Vale da Cova da Moura e terá sido destruída, em 1947, durante a construção da Avenida Infante Santo, responsável igualmente pela demolição do Aqueduto das Necessidades que, à data, conduzia água para os chafarizes de Campo de Ourique, da Estrela, da Praça de Armas e das Terras (SIPA, 2011).
Será de salientar que o topónimo "Cova da Moura", ou similares, surge amiudadas vezes em todo o território nacional associado a cavidades subterrâneas naturais e artificiais: Gruta dos Mouros ou da Ponte da Laje (Oeiras), Fojo dos Mouros (Colaride), Gruta da Cova da Moura (Torres Vedras), Casa da Moura (Cesareda), Casas dos Mouros (Colares), Cova dos Mouros (Alapraia), Algarão do Poço dos Mouros (Salir), etc.
É largamente sabido que tudo aquilo que é de proveniência remota (normalmente mais antigo do que a ocupação “árabe” da Península Ibérica) é atribuído pelo povo aos mouros. Certamente menos conhecido, e como exemplo de uma justaposição de significações encontradas na variação fonética de um vocábulo, temos, associado ao protótipo da lenda portuguesa da Moura Encantada – que é da cultura fenícia ou púnica –, o termo mowrh [mauora ou mâuôra]  – com o significado de “cova, caverna” (ESPÍRITO SANTO, 1989, 2004).


CUIÇA, Pedro - Toponímia in Ameaças à Geodiversidade - Cavidades Subterrâneas do Concelho de Lisboa. Lisboa: UA, 2012. pp. 24-27.

12/11/2012

GRUTAS DE LISBOA (III)


O culto das grutas
Santuários rupestres, incontornáveis da geografia do sagrado, as grutas surgem desde tempos imemoriais como redutos naturais associados a cultos pagãos. Fenómeno retomado pelo cristianismo que se apropriou de alguns desses espaços para aí implementar outra forma de culto. Talvez o caso mais conhecido corresponda à Gruta de Massabielle (Pirenéus franceses) que, depois de alegadas aparições marianas atribuídas a Conceição (de "concepção"), passou a ser conhecida como "Gruta de Nossa Senhora de Lourdes". Mas os exemplos são inúmeros e Portugal também é pródigo em santuários cavernícolas: Lapa de Santa Margarida (Setúbal), Gruta de Nossa Senhora da Luz (Rio Maior), Capela de Nossa Senhora da Estrela (Redinha), Gruta de Nossa Senhora do Tojo (Abrantes), Gruta da Capela da Memória (Nazaré) e Gruta da Rocha (Carnaxide), entre outras (CUIÇA, 2011).
A Gruta da Rocha ou Gruta da Senhora da Rocha, como também é conhecida, merece uma menção especial por se localizar num concelho limítrofe do de Lisboa e muito próximo, portanto, de um caso semelhante identificado na área em estudo. Situada na margem direita da ribeira do Jamor, no lugar do Casal da Rocha, esta abre-se em calcários do Cenomaniano superior, à semelhança das cavidades naturais que ocorrem no concelho de Lisboa e, nesse contexto, não se destaca das suas congéneres não fosse possuir uma história algo curiosa que culminou na edificação de uma igreja cujo altar-mor se situa precisamente sobre a mesma e que foi construída para acolher a imagem de Nossa Senhora que aí foi descoberta.
Hoje em dia continua a celebrar-se missa nesse templo, realiza-se uma festividade anual e até existe uma Irmandade da Nossa Senhora da Conceição da Rocha mas poucos conhecem a existência de uma gruta nas suas fundações e da lenda que deu origem a tudo isso
A primeira referência a esta gruta reporta-se à sua (re)descoberta, em 1822, e à estória que se seguiu ao suposto achamento no seu interior de uma "imagem de cerâmica envolta em pobre manto a delir-se de velhice e humidade": a Senhora da Conceição. Os eventos que se sucederam levaram à construção do Santuário de Nossa Senhora da Conceição da Rocha. Na verdade, esta gruta já tinha sido descoberta há muito. Tal como tantas outras, suas congéneres da Península de Lisboa, foi utilizada como necrópole e abrigo, tendo sido encontrados ossos humanos e materiais pré-históricos (líticos e cerâmicos) atribuídos aos períodos Neolítico, Calcolítico e Contemporâneo. Existem também registos (que tivemos oportunidade de confirmar em parte) que dão conta de sete abrigos/cavidades nas imediações da Gruta da Rocha onde também foram recolhidos materiais pré-históricos e históricos (CUIÇA, 2011).
O destaque dado à Gruta da Rocha deve-se ao facto de no sítio do Penedo ter ocorrido um fenómeno similar que está na origem do nome da freguesia da Ajuda, inicialmente baptizada de Nossa Senhora da Ajuda precisamente por esse motivo. Ao que consta, dois pastores de cabras terão encontrado uma imagem de Nossa Senhora numa gruta, tendo sido depois construída uma ermida para recolher essa imagem, a que se chamou inicialmente Nossa Senhora Aparecida. As romagens à ermida começaram desde logo e, porque os devotos diziam receber muitas graças, foi mudada a designação para Nossa Senhora da Ajuda. A afluência atingiu tais proporções que surgiu a necessidade de construir um local de culto de maiores dimensões que viria a ser a primitiva igreja paroquial da Ajuda. O primeiro documento, de que temos conhecimento, e que refere a Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, data de 20 de Março de 1520 e trata-se do testamento do fidalgo João de Meyra, feito antes de partir para a Índia, deixando os seus bens à igreja (CONSIGLIERI et al., 1996). A cavidade onde se terão despoletado estes eventos e da qual desconhecemos o paradeiro é designada neste trabalho como “Gruta da Aparecida”. A sua localização é atribuída, segundo uns autores, ao Largo da Ajuda (JANEIRA & MASCARENHAS, 2008), mas outros referem outros sítios!
Sobre o culto associado a grutas é também de destacar a referência que o insigne arqueólogo Leite de Vasconcelos faz, na sua obra Religiões da Lusitânia (1897), sobre a Freguesia da Lapa, inicialmente denominada de “Nossa Senhora da Lapa". Esse facto, para além da referência a que já fizemos alusão quando abordámos a toponímia, indicia que aí também deveria ter havido uma gruta e, quem sabe, associada também ao culto.

Gruta da Senhora da Rocha (Sítio do Casal da Rocha - Carnaxide) (PC © 2012)
Foto integrada no texto: Santuário de Nossa Senhora da Conceição da Rocha (Sítio do Casal da Rocha - Carnaxide) (PC © 2012)

CUIÇA, Pedro - O Culto das Grutas in Ameaças à Geodiversidade - Cavidades Subterrâneas do Concelho de Lisboa. Lisboa: UA, 2012. pp. 37-38.

07/11/2012

GRUTAS DE LISBOA (II)


O trogloditismo

Os abrigos sob rocha e as cavidades subterrâneas, naturais ou semi-naturais, tal como artificiais, nas suas formas elementares, constituem, sem dúvida, a tipologia mais remota, rústica e simples de habitação humana, permanente ou estacional. É comum pensar-se que estes tugúrios foram abandonados nos alvores das civilizações agrícolas e sedentárias, constituindo essencialmente abrigos temporários, ou mesmo ocasionais, geralmente relacionados com determinadas actividades como o pastoreio e a guarda dos campos. Na verdade, continuaram a ser utilizados até hoje na península de Lisboa, como abrigo ocasional ou, inclusivamente, como habitação. As Grutas do Vale de Alcântara e as Furnas de Monsanto são, nesse aspecto, um excelente exemplo ao terem sido habitadas pelo menos até aos anos 60 do século passado. Mas ainda existem grutas que servem de abrigo extemporâneo ou temporário (ex. Gruta do Aqueduto) ou, como no vizinho concelho de Oeiras, de habitação permanente. As cavidades da Quinta da Moura (Oeiras) foram habitadas até ao ano de 2010, altura em que os ocupantes fora “desalojados” devido às notícias televisivas que deram a conhecer esses actuais exemplos de trogloditismo!
Em certos casos e regiões, como na península de Lisboa, os abrigos sobre rocha e as cavernas foram utilizados tal como se encontram na natureza, sem quaisquer modificações ou arranjos, sendo por isso designados de “abrigos naturais” s.l.. O engenho do Homem foi responsável, contudo, apelo afeiçoamento de algumas dessas habitações naturais através da introdução de melhoramentos, mais ou menos sumários, com vista ao aumento ou mais perfeito resguardo do espaço abrigado, merecendo então o nome de “abrigos semi-naturais”. Noutros casos, frequentes no concelho de Lisboa e limítrofes, conhecem-se diversos exemplos de cavidades escavadas pelo Homem, com o objectivo de servirem de habitação sendo, portanto, abrigos artificiais. Estas intervenções, no domínio da designada “arquitectura subterrânea”, aproveitaram as bancadas de rochas mais brandas do Cretácico para escavar espaços habitacionais e/ou para armazenamento.

Cavidade da Quinta da Moura (Oeiras) em 2002 (em cima) e em 2012 (em baixo) (PC © 2002, 2012)

As tão faladas furnas, cavernas ou grutas da Rua Maria Pia, de Alcântara ou do “Sertão”, que foram alvo de numerosas notícias no Diário de Lisboa e no Diário de Notícias, em Janeiro de 1938, constituem um bom exemplo de trogloditismo. Ao contrário das notícias tão sensacionalistas quanto incorrectas que foram veiculadas, comparando estas com Lascaux e adivinhando um espólio arqueológico que nunca surgiu, estas cavidades são artificiais: um claro exemplo de arquitectura subterrânea com fins habitacionais e/ou de arrumação. A sua localização é, por vezes, confundida com outras ocorrências situadas igualmente na margem esquerda do vale de Alcântara.


Rua do Loureiro (em cima) e afloramento onde se situam as Grutas do Sertão (PC © 2012)

Grutas do Sertão ( (DR © adapt. DN nº 25854, de 28/Jan. 1938)

As referências sobre a utilização das grutas de Alcântara como habitação são numerosas e também assinalam cavidades na margem direita do vale. Há mesmo quem afirme que aí viviam, ainda nos anos 60 do século passado, “imensas pessoas” (blogue “Rua dos Dias que Voam”, 21/Nov. 2004). Venância Ribeiro, uma mulher com mais de 70 anos que ainda em 2004 fazia fretes num mercado da cidade, contou que nos primeiros tempos chovia na furna de Alcântara onde viveu até pelo menos aos 20 anos de idade: "Acordávamos todos encharcados" (ibidem).
As Furnas de Monsanto também foram muito utilizadas como habitação. Segundo João Martins (comum. pessoal) a primeira ocupação do Bairro da Liberdade “está ligada à chegada de migrantes para a recente industrialização do vale de Alcântara implicando a fixação de população nesta zona de fronteira da cidade de Lisboa. É um conjunto populacional que tem as suas origens na primeira década do século XX, com uma ocupação precária de buracos na estrutura da inclinação da Serra do Monsanto, as chamadas “grutas””. Em 1947, ainda viviam pessoas nas furnas de Monsanto (Vieira, 2000).
A gruta de maiores dimensões da Pedreira da Serafina (Furna da Serafina V), onde chegaram a viver várias famílias, foi completamente atulhada e situava-se no extremo sul da pedreira (Rui Marques, comum. pessoal). As outras cavidades, situadas na base da escarpa dessa pedreira, e ainda visíveis, foram parcialmente obstruídas com terra e blocos e contêm carros abandonados no interior (ibidem).


Monsanto I (em cima) (PC © 2012) e trogloditismo (1947), provavelmente nessa cavidade (em baixo) (in VIEIRA, 2000)

A utilização das grutas não se limitava a habitação permanente, também eram usadas de forma esporádica nomeadamente por parte de criminosos e até como local de reuniões clandestinas no período do Antigo Regime. Por esses e por outros motivos é que grande parte das cavidades foram encerradas…




CUIÇA, Pedro - O Trogloditismo in Ameaças à Geodiversidade - Cavidades Subterrâneas do Concelho de Lisboa. Lisboa: UA, 2012. pp. 33-36.

06/11/2012

GRUTAS DE LISBOA (I)


No tocante ao apelo “a todos aqueles que tenham informações acerca de grutas no concelho de Lisboa”, no âmbito de um trabalho universitário em que estive envolvido – Ameaças à Geodiversidade – Cavidades subterrâneas do Concelho de Lisboa – aqui fica o agradecimento aos que de alguma forma responderam ao dito. Devido à extensão do trabalho publico somente a introdução e as conclusões. Nos próximos posts conto publicar também os conteúdos referentes ao trogloditismo e ao “culto das grutas”, tal como as referências toponímicas.


Introdução


21.978 a.C.
Saíram e dirigiram-se a outra caverna.
Tens muitos sítios, disse o rapaz.
Há muitos caminhos debaixo da terra, respondeu o velho, mais que tu possas pensar.
(…)
1936
Era um dos temas em que [Aquilino Ribeiro] meditava quando passeava pelas terras da infância, de Sernancelhe à Lapa: que a rudeza pré-histórica não desaparecera, mesmo nas maiores cidades como Lisboa; apenas ganhara outra espécie de densidade. O mundo tornara-se hostil à presença do maravilhoso. Longe deveriam ir os tempos em que andavam faunos pelos bosques.
(…)
1742 (Julho)
Observaram o local com atenção em busca dos sinais indicados pela Beata de Óbidos. Contornaram com lentidão o sopé da montanha [Penha de França] retirando os pedregulhos maiores do caminho para avançar com as carretas e encontraram a entrada da gruta. O franciscano olhou em volta e não viu vestígios de ocupação; nem ossos, cinzas ou pegadas: o local estava abandonado há muitos anos. Inclinou-se para espreitar e cheirou a humidade do interior da terra – musgo e poeira.
(…) ‘Os Mouros moraram aqui’, disse.

David Soares (2008) – Lisboa Triunfante

A minha Lisboa desenhava-se aos poucos como um articulado de pedras engendrado por gente e cimentado por palavras, sobreposição à primeira vista anárquica de expressões, gostos, vontades, sonhos e ambições, moldura irremediável da vivência de quem vem depois e, claro, também, do olhar curioso de quem teima perceber a trama complexa da evolução da cidade.

José Sarmento de Matos (2008) – A Invenção de Lisboa – Livro I: As Chegadas


Um trabalho sobre grutas no concelho de Lisboa pode parecer, à primeira vista, algo de absurdo tendo em conta que num contexto citadino, onde grande parte do território se encontra densamente urbanizado, seria difícil encontrar tais cavidades naturais mesmo que estas já tenham existindo no passado. Esse intento não deixará igualmente de causar alguma estranheza tendo em conta que Lisboa se trata de uma cidade várias vezes milenar, palco de diversas civilizações, alvo de cataclismos tão dramáticos quanto o terramoto de 1755 e, não menos importante, na qual não se ouve hoje falar de tais fenómenos!…
O meu interesse por esta “desconhecida” temática surgiu, em 1985, com base na leitura de um artigo da autoria de Octávio da Veiga-Ferreira – Lisboa há milhões de anos: os homens pré-históricos estabeleceram-se com certeza nas antigas grutas do Vale de Alcântara!… Desde essa altura, sempre que passo nesse importante vale lisboeta lembro-me invariavelmente dos nossos ancestrais pré-históricos e das grutas aí existentes. Memórias que despertam a magia de outros tempos, nos quais esse vale seria certamente verdejante e no fundo do qual até uma ribeira corria no seu natural percurso. Um marcado contraste com a realidade actual em que o antigo curso de água corre encanado sob uma larga avenida e o vale se encontra pejado de prédios, estradas, viadutos, um caminho-de-ferro e até uma ETAR.
Enquanto o Vale de Alcântara, ainda que profundamente descaracterizado, continuar a despertar memórias de tempos ancestrais, enquanto persistir em ser um hino à lembrança de outras épocas, não permitirá o esquecimento e, só por isso, funcionará, vezes sem conta, como uma “máquina do tempo” proporcionando um eterno retorno às saudades do futuro.

Vale de Alcântara (PC ã2012)


Conclusões
Há grutas, melhor seria dizer ainda há grutas, no concelho de Lisboa: os trabalhos de prospecção permitiram localizar duas dezenas de cavidades. No entanto, a maior parte das ocorrências confirmadas no terreno encontram-se bastante degradadas, total ou parcialmente entulhadas e/ou funcionando como depósitos de resíduos de natureza diversa. Por isso, o acesso às cavidades revela-se impossível, bastante difícil ou até perigoso, não em termos da dificuldade técnica da progressão mas sim de “saúde pública”, o que impede ou dificulta a sua caracterização, nomeadamente no tocante ao seu desenvolvimento ou outros elementos de interesse. O trabalho levado a cabo também revelou a confirmação de diversas grutas destruídas/desaparecidas devido à urbanização das áreas onde se encontravam.
A reabilitação da Gruta do Rio Seco I, no âmbito da sua classificação como geomonumento, revela a importância dada à preservação da geodiversidade e augura o surgimento de uma nova mentalidade no que concerne à tomada de consciência acerca dos valores intrínsecos associados à geologia em geral e às cavidades subterrâneas em particular. A adequada dinamização desse geomonumento constituirá certamente um exemplo a seguir e funcionará como estímulo à recuperação de outras cavidades. A preservação da Furna do Rasto deve ser tida em conta, dado que se trata da única cavidade existente no concelho relativamente bem conservada, para além de possuir um desenvolvimento considerável e comportar diversos elementos de valor inegável.
O trogloditismo e o “culto das grutas” surgem como valores acrescentados no âmbito das mais recentes definições de geodiversidade, enfrentando como manifesta ameaça o esquecimento.

05/11/2012

OUTRA VEZ A LUA?


Acabo de chegar da minha terceira viagem às Canárias. Da primeira vez tratou-se de uma visita, se assim se poderá dizer, com uma importante componente espeleológica: tive oportunidade de conhecer alguns túneis vulcânicos em Tenerife e El Hierro. Esta foi, sem dúvida, uma visita tão inesquecível quanto marcante sob vários níveis… E certamente não terá sido por conhecer os “perritos calientes con papas locas”!
Da segunda vez o “assunto” que me conduziu a esse arquipélago foi o pedestrianismo: participei numas Jornadas de Senderismo em que, numa “escapadela”, acabei por subir até ao cume do Teide, juntamente com dois companheiros espanhóis, numa noite memorável (e, na descida, visitei a Cueva del Hielo)… Escusado será dizer que após essa “directa” cheguei a horas de participar nos trabalhos das Jornadas aparentemente como se nada se tivesse passado :) Curiosamente, nessa ocasião, também regressei a El Hierro onde fiz um percurso impressionante pelo desnível vencido e pela beleza da paisagem. Foi no final dessa segunda “visita” que recebi a notícia marcante da morte de um companheiro nos Himalaias…
Desta feita, a terceira, o motivo pelo qual estive nas Canárias voltou a ser o pedestrianismo. Invariavelmente fiquei “preso” à visão do Teide e recorrentemente, quer nas deslocações em veículos motorizados quer nos passeios a pé, percorri a paisagem com o olhar atraído pelos inúmeros “buracos” que aí se encontram…
O motivo pelo qual escrevo este post centra-se no facto de, após um certo “desconforto” ou “inadaptação” face à desordenada ocupação urbanística de Tenerife e de um modo geral à “modernidade”, pelo menos era essa a explicação que encontrava para o “sentir” das outras vezes (!), me ter “reconciliado” ou “focado” no espaço e no tempo! Na verdade, descobri uma nova forma de vivenciar o espaço, assente no presente, mas sentindo ou procurando sentir o passado, com base nos numerosos testemunhos… guanches e, claro, nos quais as cuevas ocupam um lugar preponderante.
Já durante a primeira visita tinha comprado um livro acerca das pinturas rupestres em cavidades artificiais, mas foi somente durante esta última que descobri e, sobretudo, senti a intensa e multifacetada presença do espírito guanche. Desde logo na rica toponímia local, mas não só… Foi desta feita que descobri a Tara – a grande mãe ou deusa da Terra –, o panteísmo ou animismo desse povo que expressava um culto ao ar livre fortemente ligado a grutas, montanhas, fontes, “pedras espirituais” ou “rochas animadas”. Tais concepções não resultaram do facto de estar uma lua-cheia fascinante ou de se comemorar o Samhain, a festa do ano velho e o começo do novo, ou até de se celebrar o começo do Inverno, numa fronteira entre mundos, mas certamente terá ajudado...
Esta terceira viagem fechou um ciclo mas abriu, sem dúvida, um outro. Esta que foi uma viagem essencialmente no self – nas profundezas do ser – terá, assim espero, tradução sob a forma de futuras aventuras no terreno em busca desse espírito da Terra só agora aflorado… Um caminho que levará, mais uma vez, ao alto de montanhas e às profundezas de grutas.


Vista do Teide, ao final do dia, desde Orotava (PC ã 3/11/2012). 



"A mi entender, esta abundante presencia de símbolos mágicos con un gran significado en determinados lugares (imaginización) o de construcciones como los templos redondos, los círculos de piedra y los altares para ofrendas son elementos que poseen una gran relevancia. Imaginizar significa percebir la magia y las irradiaciones de un lugar y añadir una imagen exterior, visible para todos, a la imagen generada en nuestro interior como consecuencia de dicha percepción.
(...)
Nuestros antepasados estaban en perfecta comunicación con cada una de las manifestaciones naturales y con cada elemento, tanto con el manantial como con el viento, mediante las incisiones, dibujos y pigmentos que hacían en la piedra. Se sentían unidos tanto a lo animado como a lo inanimado, puesto que para ellos todo lo que existía tenía vida, las piedras, la tierra, el cielo y el mar.
La religión de la cultura atlántica occidental - y también esto es un rasgo típico de los aborígenes canarios - se practicaba al aire libre. Los altares se dejaban vacíos pues eran reservados como asientos para los dioses, igual que los roques, y si se llegaban a erigir ídolos (como los "efequenes" de Fuerteventura o la "figura femenina" de Tara, en Gran Canaria), tales actividades se hacían al aire libre.
(...)
La madre ancestral de Tara, hallada cerca del municipio de Telde, Gran Canaria, es considerada, por lo general, una escultura de la máxima elegancia y gusto refinado desde una perspectiva estética. Dicha estatua se exhibe actualmente en el Museo Canario de Las Palmas de Gran Canaria. Esta escultura ha ido adquiriendo cada vez más importancia ya que la palavra "tara" en la lengua de los aborígenes canarios significa "símbolos para recordar" o "escrita". İ Todos los petroglifos son "taras"! "Tara" es pues una palavra preindoeuropea de extraordinaria transcendencia."

Harald Braem in Tras las huellas de los aborígenes - Guia arqueológica de Canarias (Zech, 2010, p. 33-35)


23/10/2012

THE THING?!

Já não vinha a esta "coisa" - o Spelaion - há bastante tempo e fiquei surpreendido... Na verdade, já é a segunda vez que isto me acontece. Estou a consultar o blogue e começo a ouvir como que um animal com respiração rápida e pesada, rouca!!! Algo verdadeiramente incrível, estranho, mesmo bizarro, mas que dá um certo toque de classe e mistério a este espaço dedicado ao mundo subterrâneo... Comecei a achar-lhe piada e decidi chamar-lhe carinhosamente "The Thing"! Um dia apaguei inadvertidamente o fundo deste blogue onde esvoaçava um conjunto de morcegos que não deixaram saudades, agora surgiu este ser incógnito aparentemente vindo das trevas, do desconhecido. Juro que não fui o autor de tamanha proeza :) E também não ando a snifar esteróides anabolizantes ;-)


P.S.: Não tenham medo que não morde (pelo menos até agora!).

18/07/2012

Primeiros americanos recuam mil anos!


A datação e a análise genética de coprólitos humanos da gruta de Paisley (Oregon - USA) vieram, mais uma vez, alterar as concepções existentes acerca dos primeiros Homo americanos. Segundo a notícia publicada no Público on-line: "Não só os excrementos tinham cerca de 14 400 anos de idade - ou seja, eram uns mil anos mais antigos do que qualquer vestígio conhecido da cultura Clóvis - mas, ainda mais, a análise do ADN humano contido nos coprólitos mostrava tratar-se de dejectos de uma comunidade humana originária da Ásia, que poderia ser a antecessora da população indígena norte-americana actual."
A bióloga portuguesa que integra a equipa internacional, liderada por Dennis Jenkins da Universidade de Oregon, salientou que "o que realmente nos permitiu caracterizar estes indivíduos como pertencendo a uma cultura diferente de Clóvis, foi o facto de serem mil anos mais antigos que a cultura Clóvis, como também o facto de as ferramentas de pedra encontradas apresentarem uma tecnologia de fabrico claramente distinta da tecnologia da cultura Clóvis".


(Jim Barlow)

14/06/2012

Pinturas de El Castillo



O antropólogo Alistair Pike e a sua equipa internacional, da qual faz parte o arqueólogo português  João Zilhão,  divulgou hoje (14/06/2012), na imprensa (vide Públicoabc News), a descoberta de pinturas rupestres na gruta El Castilho (Espanha) supostamente com mais de 40 mil anos, i.e., quatro a cinco mil anos mais antigas do que as anteriormente datadas. Essa descoberta coloca a possibilidade de a arte rupestre, até agora atribuída ao Homo sapiens, poder ter sido efectuada por neandertais. Facto que, a confirmar-se, irá revolucionar as concepções aceites actualmente sobre a evolução dos Homo, nomeadamente no que concerne às capacidades de produzir arte. O artigo científico sobre esta descoberta será divulgado amanhã na revista Science.

P.S. (15/06/2012): Notícias em ExpressoSol e BBC on line.

Essa não é a nossa condição


Não, desta feita não vamos falar sobre a "franga dos ovos d'ouro"! Não é que a "coisa" não merecesse ser (re)abordada até à exaustão, para demonstrar de forma reiterada a perversidade e o absurdo de tal galináceo... Voltamos ao Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC) para, mais uma vez, abordarmos o "marisque"! Não, não nos referimos ao negócio new age das "ventoinhas",  tipo "delícias do mar", referimo-nos ao tradicional marisco que dá pelo nome de "pedreiras". Já fizemos alusão ao fenómeno em 2008 e em 2009, mas nunca é demais voltar a um assunto de tal calibre. Ainda para mais quando tal matéria volta a despertar a atenção dos media, estando na "ordem do dia". O Jornal de Leiria publicou hoje um artigo, de Raquel de Sousa Silva, precisamente sobre a extracção de recursos: Exportação de pedra cresce e agrava destruição da paisagem das Serras de Aire e Candeeiros.
Temos perfeita consciência de que a indústria extractiva dá trabalho a bastante gente, no PNSAC tal como noutras áreas curiosamente ditas "protegidas", de que o Parque Natural da Arrábida (PNA) é outro (mau) exemplo, assim como estamos cientes que o vinho já terá dado de comer a um milhão de portugueses! Tudo muda, tudo se transforma e nunca será tarde para investir em novos paradigmas de desenvolvimento, já agora verdadeiramente sustentáveis e que garantam uma eficaz conservação da natureza. Afinal não é para garantir a conservação da natureza que os parques naturais foram criados?
Também já sabemos que pregar aos peixes é algo inglório, tal como pregar a galinhas, a mariscos e, ainda para mais, a delícias do mar; assim como adoptar atitudes quixotescas de combate a "ventoinhas". No entanto, antes ser lírico ou utópico do que alinhar com os vendilhões do templo que é a natureza. Tal como escreveu Manuel Alho no prefácio do livro "Educação Ambiental em Portugal (LPN, 2003): se "o mundo é um lugar perigoso para se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer", como defendia Albert Einstein, essa não é a nossa condição.


08/06/2012

Faleceu Phillip Tobias

Phillip Tobias, especialista no estudo da evolução humana, faleceu na passada quinta-feira (7 de Junho), com 86 anos, em Joanesburgo (África do Sul). Deve-se a este paleo-antropólogo um trabalho pioneiro em diversas jazidas consideradas como "o berço da humanidade", de entre as quais se salienta as Grutas de Sterkfontein (situadas a noroeste de Joanesburgo). Foi nestas grutas, classificadas como património da UNESCO, que surgiu o esqueleto mais completo de Australopithecus (com mais de quatro milhões de anos): o Little Foot.

26/05/2012

DARK PLACES

Buraco dos Mouros (C.K.ã 2010)

"So much of the history of rock art studies emanates from the study of Paleolithic rock art in Europe. As noted (...), the abbé Breuil was convinced that making art was a religious activity, so rock art had to have been done by priests and shamans, who would have been male only, because in his experience, only men were priests. Leroi-Gourhan, Guthrie, Onians, and others thought art was made by unters, and in their understanding of world ethnography, only men were unters. Many believe that caves were too deep, dark, and difficult to get into, and so would have been too frightening for women (Russell 1991). As feminist anthropologists have pointed out for decades, the Western scholarly tradition assumes that women remain bound to home, hearth, food preparation, and child rearing for their entire lives. Feminist critics of archaeology have documented the projection into the past of present-day stereotypes of women as passive, uncreative, and subordinate to active, creative men (Watson and Kennedy 1991; Hays-Gilpin 2000d). In fact, women take part in many kinds of ritual activities in many parts of the world, especially after their child-bearing years. Women, especially young women, often hunt small game. In a few hunter-gatherer cultures, such as the Agta of the Philippines, women hunt as often as men do (Estioko-Griffin 1981). Fear of deep, dark places, is likely to be learned and unlearnable, and therefore unlike to be sex-linked (note that today many cavers are women and a woman was first through the discovery hole at Chauvet)."

Kelley A. Hays-Gilpin - Ambiguous Images - Gender and Rock Art (2004, p. 87-88)

25/05/2012

Flautas pré-históricas


Segundo a revista Journal of Human Evolution, uma equipa de arqueólogos fez recentemente uma descoberta notável na gruta de Geissenkloesterle, no sul da Alemanha. Liderados por Tholas Higham, da Universidade de Oxford, os investigadores recuperaram da escavação arqueológica aqueles que são os mais antigos instrumentos musicais conhecidos: duas flautas de ossos de ave e marfim de mamute com 42 a 43 mil anos.
A notícia foi hoje publicada na Naturlink - a ligação à natureza.

ART PURPOSES

"What these early paintings reveal is a very close stylistic continuity with the last phases of rock art in this region. This connection is highlighted by the 'X-ray' infill of the bark painting figures - the characteristic motifs used to represent internal organs within the body cavities of animals - which are also common in the rock art. The outline shape of the species represented, and the devisions indicated between certain limb parts, are also features shared between the two media.
The early collections point to the contiguity of painting on the walls of caves used as wet-season shelters.
Kunwinjku today, who have sheltered regularly in both bark houses and rock country caves during their youth, and occasionally still do in the present, describe these two contexts of painting as being equivalent.
(...) Karrnaradj, a senior Kunwinjku man at Oenpelli in 1982, described it this way:


My father painted two red kangaroos in a cave in my country. Before men painted in bark houses and in caves, for children to look and see. To make them happy. When we tell the story they can look.


Kunwinjku indicate that paintings on bark shelters, and on the walls of caves were people lived, were produced in a relatively informal context as opposed to ceremonial art production.They point to the half-complete and inexpert paintings alonside more careful works to show that this informal atmosphere provided the occasion when young artists were 'trained' to paint.
(...) These shelter paintings are described to have four interlinked purposes. The first is to illustrate the public versions of mythical episodes or historical occurences which are 'for fun' and 'to make children happy'. These stories are retold in a fairly relaxed atmosphere for the amusement and education of children as well as for the pleasing decoration of the space. The second purpose is 'practice' for the young artist in completing such illustrations. While the subjects may be outside versions of Ancestral myths, more important ceremonial interpretations could also be attributed to them (...). The third aim of producing motifs such as hand stencils is to personalize the space. This too is carried out in an atmosphere of 'fun' and there are children's hanprints alongside those of the adults in the caves. Spencer recorded a similar explanation for the hand stencils in the caves at Oenpelli in 1912 (1928: 812). Fourthy, these paintings, as well as other more elaborate paintings executed by senior artists, are described as a record or memorial of an individual having visited the site."

Luke Taylor (2007): Seeing the Inside - Bark Painting in Western Arnhem Land (p. 17-19)

23/05/2012

CATACLISMO UNIFORMITARISTA :)


No passado sábado (19 de Maio) assisti a uma palestra na qual me “ensinaram” que há 10 mil anos atrás ocorreu um “cataclismo” resultante da queda de um meteorito, que originou uma cratera com 300 km de diâmetro e um tsunami com 500 metros de altura (que passou a 1000 metros em terra); responsável, concomitantemente, pelo degelo de glaciares com 30 km de altura e pela extinção dos elefantes na baixa de Loures! Entretanto, antes da dita sucessão de eventos, era costume esses glaciares no Verão estarem à latitude da Irlanda e no Inverno descerem até aos Pirenéus!! Por sua vez, há 6000 a.C. deu-se o enchimento do Mediterrâneo que até aí estava seco de Itália até, pelos vistos, ao Estreito de Gilbraltar!!! Essa pretensa geo-história não me chocou pela sua inverosimilhança e, menos ainda, por alterar tudo aquilo que aprendi na licenciatura de geologia ou nas minhas amadoras leituras sobre pré-história, afinal a mudança de conceitos é prática corrente em ciência, apenas me deixou algo mal disposto tendo em conta que não estou habituado a “shakes” que originem “misturas” tão poderosas!
Nesse mesmo dia adquiri um livro que, por coincidência (?), também referia que um “cataclysme écologique a entraîné des bouleversements radicaux”, sem identificar as causas do mesmo; claro está, sem falar em quedas de meteoritos e tsunamis associados. Espantoso é ignorar que tal se insere numa sequência de outros eventos similares de glaciações (Biber, Donau, Günz, Mindel e Riss) e de interglaciações que levaram à definição do Quaternário ou Antropozóico… Os factos são certamente melhor explicados à luz dos ciclos de Milankovitch do que por tsunamitos ou outras ausentes "evidências"! A transgressão Flandriana que se seguiu ao final do Würm continua até hoje e, pelos vistos, o próprio aquecimento global de que tanto se fala, por outro lado é curioso que não se vislumbre a “extinção em massa” que está a ocorrer agora mesmo “debaixo dos nossos olhos”! É tudo uma questão de ritmo, melhor seria dizer de tempo: de facto processou-se (e ainda se está a processar) um “cataclismo”, diremos uniformitarista :)
Já agora, publico aqui um pequeno “vídeo” sobre o Mesolítico como época de transição (entre o Paleolítico e o Neolítico), para uma nova maneira de entender o mundo; não como um período pós-traumático mas como uma nova “janela” de oportunidades evolutivas.

05/05/2012

Tubo de Ensaio...


A "galinhola dos ovos d'ouro" deu que falar no Tubo de Ensaio :) "Se uma pessoa andar com um aparelho da via verde na testa já pode andar? (...) Mas isto anda tudo maluco ou é só impressão?..."


23/04/2012

Pela liberdade...

Na sequência das anteriores postas sobre a "Galinhola dos Ovos d'Ouro" ficamos muito entusiasmados com os desenvolvimentos verificados nos últimos tempos e que já prevíamos há bastante: quando a lei começasse a ser aplicada no terreno os protestos viriam à tona e voila... Sob o mote "a natureza é de todos", na próxima quarta-feira, dia 25 de Abril, estão marcadas manifestações de montanhistas e pedestrianistas, no Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG) e no Parque Natural das Serras d'Aire e Candeeiros (PNSAC). Estas manifestações são um protesto contra os pedidos de autorização para praticar actividades de ar livre nas Áreas Protegidas e os consequentes pagamentos de taxas, quer sejam autorizadas ou não. A iniciativa está a ter ampla cobertura noticiosa nos media. Aqui fica o link da notícia publicada no Público: http://ecosfera.publico.pt/noticia.aspx?id=1543151.

E no tocante à "espeleo" como estão as coisas?

18/04/2012

A-pelo...


Hoje, dia 18 de Abril, comemora-se o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios. Uma ocasião para lembrar a importância de preservar o património geológico, mormente na sua vertente museológica. De entre as ocorrências consideradas (ou que possam vir ser consideradas) geomonumentos, ou simples geossítios de interesse, não podemos deixar de destacar as grutas. De facto, a geoconservação passa também pelo património (geo)espeleológico, tantas vezes ignorado ou esquecido.

Neste contexto, aproveito também para fazer um apelo a todos aqueles que tenham informações acerca de grutas no concelho de Lisboa. Estou neste momento a efectuar um trabalho, de âmbito universitário, precisamente sobre ameaças à geodiversidade no que concerne às grutas existentes em Lisboa e arredores, e todos os dados acerca dessas ocorrências serão muito bem-vindos. Obrigado.

Gruta situada no concelho de Lisboa em calcários do Cenomaniano (©Pedro Cuiça, 2008).

17/04/2012

A Galinha dos Ovos d'Ouro: desenvolvimentos!


Tirando a particularidade de a proposta apenas se referir a Parques Nacionais, quando apenas existe um em Portugal (!), será digno de menção alguém se lembrar da "franga" (I, II e III) que se tornou uma rica "galinha" e, entretanto, virou "pomba da paz" podre!!!



P.S.: Já agora, só uma pequena nota, para quem tem andado distraído ou não tem acompanhado o "assalto" que tem vindo a ser perpetrado no tocante aos direitos de usufruto da Natureza e prática de actividades de ar livre: a última novidade, após as taxações de associações e pessoas a título individual, é a concessão da exploração de determinadas zonas/locais e/ou de actividades a privados! Por exemplo, as pessoas terão de pedir autorização para andar a pé numa Área Protegida mas, simultaneamente, um privado tem uma concessão para passear pessoal em motas 4x4 na maior legalidade!!! "Bonito, n'é?"

09/04/2012

LASCAUX: A pré-história da arte

A "coisa" em seis episódios...

19/03/2012

O caso curioso

"Apesar de todo o encanto e valor documental da arte móvel, apesar de todas as vantagens que supõe para a tarefa do arqueólogo, não há dúvida de que a arte mural oferece maior grandiosidade e desafia a imaginação do especialista, obrigado a tentar resolver tantos problemas quantos os que se propuser.
Dá-se aqui o caso curioso de que algumas das grutas hoje mais famosas neste aspecto tinham sido repetidamente visitadas ao longo dos séculos - tal é o exemplo muito conhecido de Rouffignac - sem que, no entanto, alguém tivesse reparado nas pinturas ou nas incisões que hoje nos deleitam. Simplesmente, não se viam porque ninguém podia imaginar que uns seres humanos que se supunha extremamente atrasados pudessem rivalizar, num aspecto tão elevado da vida como é a arte, com as gerações modernas.
(...)
A arte rupestre compreende relevos, gravações e pinturas. O relevo não é frequente, mas apresenta algumas belas mostras: o friso solutrense de Le Roc (Sers), indubitavelmente lugar de culto, por exemplo, com a sua série de animais dispostos em semicírculo, os cavalos de Cap Blanc ou a série de representações rigorosamente femininas na parede da Gruta de Anglès-sur-Anglin.
Incisões há muitas e sempre difíceis de ver, pelo que o seu número cresce constantemente, inclusivamente nas jazidas já exploradas. As linhas gravadas são por vezes muito finas ou confundem-se com as fendas da parede rochosa. Há casos (Combarelles, Los Casares, por exemplo) em que todas as representações são gravadas, mas em geral surgem a par das pinturas ou combinadas com elas no todo ou em parte da silhueta animal, ou em certos pormenores da figura.
É na pintura que a arte rupestre alcança todo o seu esplendor. Se observarmos as suas características, notamos alguns traços gerais. As pinturas rupestres do Quaternário ocidental surgem nas paredes das grutas, inclusivamente a grande distância da entrada, em salas amplas ou corredores estreitos, sendo difícil chegar até eles ou mover-se neles com desenvoltura. Só uma parte das grutas susceptíveis de serem aproveitadas o foram na realidade. Em certas ocasiões os níveis arqueológicos cobrem uma parte das pinturas. Estas costumam representar animais, com certo naturalismo, embora ocorram evidentes convencionalismos ou estilizações e não faltem abundantes signos raros, simbólicos sem dúvida, o que permite acompanhar quase paralelamente a evolução do naturalismo na arte quaternária e a da arte simbólica, que chega em alguns temas a competir com o mais moderno que se possa imaginar. No conjunto, sentimo-nos satisfeitos com esta arte e sentimo-la próxima de nós, prova convincente da nossa analogia espiritual com as gentes do fim do Paleolítico.

Luis Percot Garcia & Juan Maluquer de Motes in A Humanidade Pré-Histórica (Editorial Verbo, 1971, pp 69-71)

Gruta de Rouffignac

16/03/2012

O processo evolutivo da espécie humana

Lascaux (França)

Este texto trata-se de uma reflexão sobre o hipotético processo evolutivo da espécie humana, com base no texto de opinião de Paulo Mota, publicado no blogue De Rerum Natura, sobre as declarações proferidas por James Watson, co-descobridor da estrutura da molécula de DNA (1953), numa entrevista ao Sunday Times, publicada no dia 14 de Outubro de 2007.

A Humanidade não entrou na história da vida de uma forma estrondosa. Os primeiros homens [não] tinham nada de impressionante. Eles esgueiraram-se, na Natureza, pela porta traseira (Hublin & Seytre, 2009: 45)”. Mas, apesar da raridade dos dados disponíveis, não existem hoje dúvidas de que o continente africano é o berço da humanidade. Tal como não existem dúvidas, por via de diversas evidências de evolução, de que o Homem actual é o resultado de um processo evolutivo. Conhecem-se duas espécies do género Homo que terão vivido entre 2.45-1.55 milhões de anos (Ma), o H. rudolfensis e o H. habilis (o hábil inventor da pedra lascada) que, mais tarde, desapareceram e deram lugar ao H. erectus (ou H. ergaster). A expansão das estações arqueológicas onde foram encontrados fósseis com menos de 1.7 Ma mostra que os Homininos já não se encontravam confinados a um pequeno nicho ecológico: tendo explorado novos territórios, ultrapassaram as fronteiras da savana e saíram de África (Hublin & Seytre, 2009: 51).

Há cerca de 1.5 Ma a espécie H. erectus (ou H. ergaster) expandiu-se até à Ásia e, depois, para a Europa. Durante milhares de anos diversas barreiras geográficas (desertos, glaciares e mares interiores) separaram as populações, permitindo a especiação. No norte da Europa surgiu uma espécie adaptada ao frio: o H. neandertalensis. Entretanto, na África sub-tropical desenvolveu-se uma espécie adaptada ao calor: o H. sapiens. Há cerca de 100 mil anos esta espécie expandiu-se até ao Médio Oriente e há 45 mil anos o aquecimento climático proporcionou-lhe um caminho até à Europa. Este fraccionamento da espécie H. erectus em duas espécies-filhas, semelhantes, é um exemplo típico de microevolução.

O estudo do ADN mitocondrial confirmou que as linhagens que deram origem ao Homem Moderno e ao Homem de Neandertal há cerca de meio milhão de anos que divergiram, tal como os fósseis o tinham sugerido. O isolamento geográfico não conduz, por si só, à formação de novas espécies mas, ao permitir uma divergência genética das populações isoladas, contribui para o processo da evolução. O ponto de partida será a geração de variações através de mutações, que são mudanças aleatórias na composição química dos genes, nas posições dos genes nos cromossomas e no número dos próprios cromossomas. Quando um novo mutante ou uma nova combinação de alelos raros ou preexistentes consegue superiorizar-se ao alelo comum, “normal”, há tendência para alastrar pela população ao longo de muitas gerações e, com o tempo, torna-se a nova forma genética (Bacelar-Nicolau & Azeiteiro, 2001: 106). O genótipo é alterado e, em consequência, gera-se um fenótipo diferente. Será igualmente de salientar, de entre os modos de selecção natural, a importância que terá desempenhado a selecção direccionada resultante das mudanças ambientais, provocadas pelas alterações climáticas, e das migrações das populações para novos habitats com diferentes condições ambientais.

O estudo do DNA mitocondrial sugeriu também que todos os humanos modernos tiveram uma origem recente (há cerca de 150 mil anos) no seio de uma população bastante pequena que vivia na África (Sabbatini, 2001 in Paradela et al., s/ data; Hublin & Seytre, 2009:90). O pequeno tamanho desse primeiro povoamento (cerca de 15 mil indivíduos) teve um “efeito fundador”: sendo a sua variabilidade genética excepcionalmente fraca, algumas características presentes na população-mãe de África ficaram marcadas na sua descendência.

Muitas características morfológicas e comportamentais dos seres humanos são determinadas por um conjunto de genes, como a cor da pele e, até, eventualmente a inteligência (Sternberg et al., 2005 in Paradela et al., s/ data). Um modelo para explicar a herança da cor da pele em humanos classifica os indivíduos em cinco fenótipos básicos: negro, mulato escuro, mulato médio, mulato claro e branco. Essa classificação seria controlada por dois pares de genes, cada par composto por dois alelos, sendo que um dos alelos de cada par seria mais activo na produção de melanina em detrimento do outro (King, 1999 in Paradela et al., s/ data). Entretanto, existem outros modelos que afirmam a correlação de três ou mais genes, com os seus respectivos alelos, originando fenótipos diferentes. A determinação dos genes ligados à inteligência é ainda mais incerta e controversa, uma vez que não se sabe quantos e quais são atribuíveis a essa “característica” (Rees, 1993 in Paradela et al., s/ data).

O Homem de Cro-Magnon, tal como é conhecido o primeiro representante da nossa espécie a chegar à Europa, constitui um excelente exemplo no tocante à evolução da “inteligência”. A sua chegada ao Sudoeste francês assinalou uma explosão de inovações tecnológicas e expressões artísticas que passou, desde então, a caracterizar de forma inequívoca os humanos “modernos”. No entanto, tal explosão de “inteligência” não teve expressão detectável em termos genéticos (Le Fanu, 2009: 50).

Conclusão

Devido às suas implicações sociais, a genética e a evolução humanas são assuntos altamente impregnados de emotividade e grande parte da literatura sobre esses temas é influenciada por afirmações que não são baseadas em evidências mas em suposições (Futuyma, 1942 in Paradela et al., s/ data). Nesse contexto, tanto as afirmações de James Watson, publicadas no Sunday Times, como as inúmeras reacções ao artigo em causa devem ser encaradas com as devidas reservas.

É possível estabelecer, com base em critérios biológicos, a existência de duas ou mais subespécies, para uma dada espécie, quando as suas características genéticas são suficientes para as diferenciar, o que não ocorre na espécie humana. Embora a cor de pele e a inteligência estejam no centro de discussões sobre a existência de “raças” humanas, a genética revela que essas polémicas são infundadas.

Pedro Cuiça (2011)


Bibliografia

Bacelar-Nicolau, P. & Azeiteiro, U.M. (2001): Introdução à Biologia; Universidade Aberta, Portugal, pp. 220.


Hublin, Jean-Jacques & Seytre, Bernard (2009): No Tempo em que Outros Homens Viviam na Terra - Novas perspectivas sobre as nossas origens; Publicações Europa-América, Mem Martins (Portugal), pp. 198.


Hunt-Grubbe, Charlotte (2007): The elementary DNA of Dr Watson; Disponível em: http://entertainment.timesonline.co.uk/tol/arts_and_entertainment/books/article2630748.ece; Acesso em: 8 de Dezembro de 2010.

Le Fanu, James (2009): Porquê nós? - O mistério da nossa existência; Civilização Editora, Porto (Portugal), pp. 360.

Paradela, Eduardo Ribeiro et al. (s/ data): Poderiam os fundamentos da evolução humana e da genética desfazer discussões entre "raça" e "inteligência"?; Disponível em: http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=3119; Acesso em: 8 de Dezembro de 2010